Dostoievski é um dos meus romancistas favoritos (senão, o favorito). É dele a medalha de exceção da minha vida iniciante de leitor: Eu não gosto de ler livros em e-book, mas li, uma única vez, e (já diziam os oftalmologistas) estragando minha vista defronte ao computador, a obra Noites Brancas. Parti (sem cuspe) para Crime e Castigo, Os Irmãos Karamazov, O Jogador e atualmente estou lendo O Idiota (neste meio tempo, algumas olhadelas em Netochka Nezvanova).
Tomei conhecimento de textos (acadêmicos ou não) que traçam paralelos e diferenças entre o Niilismo de Fiódor e Nietzsche, usando como base os livros Os Irmãos Karamazov, daquele, e Assim falou Zaratustra, deste. Nos últimos dias, talvez por causa da leitura de O Idiota, pesquisei e me informei melhor sobre essa história niilista dos dois. Comento.
Li a obra-prima de Ivan Turgueniev (Pais e Filhos, 1862) há alguns meses, a qual trata do jovem Bazárov, um estudante naturalista que não consegue levar uma vida niilista, conforme propusera a si mesmo. Este livro populariza o termo "niilismo" na Rússia e provoca debates acalorados, dos quais o próprio Turgueniev foi vítima.
Pais e Filhos influenciou Dostoievski, que cedeu espaço, na sua revista Tempo, para uma crítica favorável à obra de Ivan, feita por Nicolai Strakhov. Porém, por causa de um prefácio em uma das edições de Pais e Filhos (Dostoievski acusou Ivan de ter se submetido aos niilistas), e por causa do romance Fumaça, de Turgueniev, os dois escritores cortaram relações.
Ficaram de mal, mas não intelectualmente.
Crime e Castigo (1866), O Idiota (1869) e Os Irmãos Karamazov (1881) trazem, dizem, uma narrativa simpática ao Niilismo, percebida principalmente nos atos e personalidade dos personagens.
Raskólnikov (Crime e Castigo) mata uma velhinha e sua irmã com o fito de se tornar um homem extraordinário, pois só homens extraordinários estavam acima da moral e das leis; Karamazov pai (Os Irmãos Karamazov) é assassinado pelo Karamazov filho (Dmitri) na disputa pelo amor da mesma mulher, sem que o parricídio se mostrasse uma aberração, mas, ao contrário, uma atitude perfeitamente justificável; Em O Idiota, o Príncipe Míchkin, homem honrado, é rodeado de pessoas ultrajantes, sendo ele, porém, o ser inferior, digno de pena e escárnio (o idiota).
Raskólnikov (o homem-extraordinário) teria sido, para Nietzsche, inspiração para o super-homem, símbolo do Niilismo ativo.
Entretanto, como traço de toda e qualquer genialidade, a controvérsia também tem espaço em Dostoievski e Nietzsche. Há quem entenda que o Niilismo não é uma bandeira erguida e sustentada pelos braços de ambos, mas um estandarte para o qual se chama atenção e logo após é arremessado no chão e queimado em praça pública.
O existencialismo em Fiódor seria a prova de que ele tinha, não simpatia, mas aversão à ausência de moral e crença, posto que a redenção humana seria o encontro com Deus. Nietzsche, em Genealogia da Moral, teria criticado abertamente o Niilismo, contrariando os que acham que o alemão de Röcken pode ser apontado como o autor desta corrente filosófica.
As contradições, parece-me, é que são o ponto em comum destes contemporâneos oitocentistas.
Quanto ao livro O Idiota, leitura muito recomendada.
Excelente texto... E uma ótima indicação de leitura!
ResponderExcluirPor Nietzsche como niilista pode ser algo extremamente ingênuo - há muito mais na filosofia que ele nos mostra que afirma as possibilidades da vida, do viver, do existir (que até podemos pensar como 'eks'itir heiddegeriano).
ResponderExcluirAcredito que possamos pensar, num viés semelhante, Doistoievski: personagens que fogem de modelos cristãos para nos mostrar um outro olhar sobre os julgamentos que temos em (nossa) vida.
Ótima leitura! (tanto a que vc expõe qnt à recomendada!)
Olá, gostei do texto, porém há um erro, não foi Dmitri que matou o pai e sim Smierdiávok (talvez o filho bastardo)
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